Precisamos de pontes, não abismos

Quantas vezes, durante uma conversa, enquanto o outro falava você ao invés de escutar já estava formulando sua resposta na cabeça? Para que serve o diálogo? Para aprender com a visão do outro e assim enriquecer a sua ou para impor a sua visão e tentar mudar a opinião de quem discorda? O diálogo tem que servir para construir pontes, não para gerar abismos.

Em meu segundo ano de Japão fui assistir a uma aula na turma do meu filho, que na época estava na quinta série. Um grupo de alunos apresentava um trabalho para o resto da classe. O professor aproveitava para dar uma lição básica dentro da atividade. Mas ele não estava naquele momento se preocupando com a performance de quem falava. Ao se dirigir aos alunos sentados, explicou que a qualidade da escuta é tão importante quanto a qualidade da fala. Disse que eles deveriam não só prestar atenção ao conteúdo da fala dos colegas mas também, com a linguagem corporal, mostrar o quanto estavam interessados e concentrados no que lhes era dito.

Sinto muito informar a quem acha que sabe muito. O mundo é complexo demais para ser entendido com clareza. O máximo que desenvolvemos é um ponto de vista a partir das nossas referências e experiência de vida. E todo esse conhecimento acumulado por cada um só serve se for compartilhado. Vamos parar e pensar nessa palavra. Compartilhar é muito diferente de transmitir. Compartilhar envolve troca, envolve respeito.

A polarização que toma conta das discussões no Brasil, em um momento em que deveria estar acontecendo um diálogo rico e uma auto-avaliação profunda e democrática é inaceitável. Chamo aqui a atenção para a crescente prepotência de ambos os lados nas diversas discussões. Se fulano pensa diferente, ele é automaticamente desqualificado e rotulado. Se tem essa ou aquela opinião sobre o caso X, então é de direita, de esquerda,  racista, pedófilo, ignorante – e vou parar por aqui porque só em escrever essas palavras já me sinto mal.

Não consigo entender como alguém pode rotular qualquer pessoa. Fico espantada de ver isso acontecer com tanta facilidade e naturalidade. O caminho do auto-conhecimento já é tão difícil, como alguém pode achar que sabe quem o outro é?