Temos que cuidar dos nossos meninos

No nosso terrível sistema de educação pública, o menino assim que se torna adolescente muda para o turno da manhã e chega em casa na hora do almoço. Nas comunidades desassistidas pelo Estado, eles são a mão de obra da guerra do tráfico. A puberdade explodindo, cabeça confusa, ainda imaturos. O pai muitas vezes já caiu fora há muito tempo. A mãe guerreira trabalha o dia inteiro para botar comida na mesa. E os meninos desocupados, perdidos, têm como figura masculina de referência e poder os bandidos que aterrorizam sua vizinhança, mas que podem comprar o tênis de marca e que empunham as armas que fascinam.

Meu filho de 14 anos, ultra privilegiado, adora um videogame violento. A bomba hormonal que explode dentro dele é cheia de agressividade, que ele canaliza virtualmente. Olhando para ele, penso o tempo todo nos outros meninos do meu Rio de Janeiro que não têm tanta sorte. É perfeitamente normal se sentirem atraídos pelos traficantes.

A solução para a violência é tão óbvia que me causa uma imensa irritação ser discutida sempre só em linhas gerais, como um sonho distante. Sim, é a educação, todos sabem. Mas o brasileiro não pensa a longo prazo, não planeja. Aqui no Japão, até aos sábados e domingos os adolescentes estão envolvidos em alguma atividade curricular. Andam pelo metrô carregando um instrumento, ou indo para algum treino esportivo. As escolas, em HORÁRIO INTEGRAL, têm as disciplinas essenciais e muitas outras: economia doméstica, estudo sobre trens, dança, corte e costura… As escolas têm piscina, quadra poliesportiva, biblioteca. Os professores são tratados com respeito e admiração, chamados de Sensei (título carregado de extrema reverência).

Conto o que acontece aqui não para que os brasileiros fiquem com inveja, ou admirem o Japão como um exemplo distante e inalcançável.  É para nos indignarmos e cobrarmos. A sociedade brasileira tem que agir, já passou demais da hora. Faço uma conta otimista. A partir da aplicação de um sistema de educação integral e atividades extras, em 10 anos a mão de obra do crime diminui drasticamente. 10 anos não é nada. E o impacto positivo já começaria a ser sentido bem antes disso. Os meninos adolescentes de hoje podem ser salvos, mas é preciso pensar neles como se fossem nossos filhos. O Estado tem que cuidar desses meninos, e para que isso aconteça a sociedade tem que pressionar. A sociedade somos NÓS. No meio da guerra, o combate imediato é obviamente inevitável e essencial. Mas sem cuidar do futuro dos nossos meninos, a solução nunca virá.