O tempo do Brasil

Alguns países valorizam o passado, como os europeus, que preservam a história em suas construções centenárias, cidades medievais. O Japão foca no futuro, atitude explicada em parte pelos frequentes terremotos. Os japoneses demolem e erguem novos prédios com uma frequencia impressionante, a tecnologia de proteção aos fortes tremores se renova e da mesma forma as cidades. Eles não podem se dar ao luxo de preservar sua história nos prédios, mas no campo simbólico e cultural fazem isso muito bem.

Não vou me alongar nessa comparação porque o que nos interessa é o Brasil. Em que tempo vive o Brasil? A teoria que vou arriscar aqui é que vivemos no presente, um presente que se repete como em um disco arranhado. Os problemas são sempre os mesmos, as soluções são sempre óbvias e a falta de investimento nelas é permanente.

Nosso presente se repete porque evoluímos muito devagar. O país de hoje é praticamente o mesmo de 30 anos atrás, quando eu era criança. Quase nada mudou. As obras são escolhidas e feitas de acordo com as propinas e superfaturamentos que podem gerar; ao invés de servirem ao interesse de quem precisa, atendem às construtoras e aos políticos. As políticas públicas são imediatistas, só acontecem se derem retorno rápido e surtirem efeito para as próximas eleições. Quando digo que o Japão está sempre mirando e se encaminhando para o futuro me refiro também à eficiência que o Estado aqui tem em planejar e cumprir metas a longo prazo.

Viver intensamente o presente é o segredo da felicidade dos indivíduos, receita que recomendo a todos. Mas em se tratando do coletivo, um presente supervalorizado é muito nocivo. Vem aí o carnaval, nossa especialidade e riqueza cultural. Nada contra, sou carioca e adoro. No Nordeste e em outras partes do Brasil, a festa aquece a economia e dá certo porque é feita pelo povo. O carnaval é intenso e promove uma catarse, uma oportunidade de aliviar a pressão que se acumula por tantos motivos. Assim como a festa junina, assim como os jogos de futebol, as finais de campeonato.

Só que o resto do ano acaba se tornando uma espera para que esses momentos cheguem, onde todos se aliviam do sofrimento do dia-a-dia e tomam fôlego para depois retomarem a realidade dura. Pois está na hora de pararmos de viver em função dessas festas esporádicas. Para encarar uma mudança no presente que se repete tem que se aplicar medidas de resultado lento mas transformador. É preciso olhar para frente e acreditar que a transformação é possível, por mais difícil que pareça. É preciso de paciência e perseverança para encarar a construção lenta, tijolo a tijolo, de um país do futuro.