Três mulheres

Três mulheres muito diferentes, três países, três culturas, três personalidades, três historias de vida. Eu, uma chinesa e uma japonesa. Nos conhecemos em um retiro de yoga e descobrimos compartilhar de sentimentos e desafios muito parecidos.

Acho que nunca mais vou me esquecer delas, mesmo sabendo que provavelmente não as encontrarei novamente. Mao, a chinesa, cabelos curtos, forte, falava um inglês perfeito. Viaja pelo mundo por causa do trabalho, tinha uma expressão séria e concentrada. Ficou muito curiosa sobre o Brasil, perguntou se tínhamos muitos feriados. Falei para ela sobre o Carnaval, uma semana de festa nas ruas, todos os anos. Disse que os brasileiros tem 30 dias de férias e outras folgas. Ela ficou admirada e pensou como seria bom ser brasileira. Comentei que talvez tenhamos feriados demais…

A japonesa me marcou muito. Éramos um grupo grande no retiro, 15 pessoas, e fomos almoçar em um restaurante indiano. Me sentei na frente dela na mesa, e senti que as outras japonesas a olhavam com um certo preconceito. Não decorei o nome dela, mas não vou mais esquecer de seu rosto e de sua voz – muito baixa e fina, com uma dificuldade imensa de se projetar. Ela se vestia com uma roupa bem fora de moda, um colete de renda e cores pálidas como seu rosto. Falava um pouquinho de inglês e entendia o que eu dizia, prestava atenção com os olhos brilhando, sorrindo muito. Muito difícil escutar o pouco que ela conseguia falar, de tão baixinho…

Depois do almoço formamos uma roda para escutar a escritora Leza Lowitz nos ensinar um pouco da filosofia tibetana. Fizemos um exercício de purificação. Escrevemos em um papel atos do qual nos arrependíamos e depois os queimamos no fogo dentro de um pote de cerâmica. Leza nos explicou a importância de lembrarmos de erros do passado, nos arrependermos sinceramente e nos comprometermos a não repeti-los. Enquanto cada uma queimava seu papel, ela tocava um instrumento parecido com uma sanfona e cantávamos juntos um mantra.

Depois do exercício, nos reunimos em grupos de três para conversarmos sobre o que aprendemos durante o retiro. Para o alívio de Mao e da japonesa, falei primeiro. Expliquei que meu objetivo é cada vez mais me libertar da expectativa de reconhecimento dos outros sobre o que produzo. Quero ser capaz de canalizar minha energia na escrita e não sofrer com a necessidade de ter meus textos compartilhados e comentados, quero conseguir me contentar apenas com o prazer de relatar minhas histórias e me livrar da ansiedade do que pode vir depois de cada publicação, me livrar da expectativa de um reconhecimento vindo dos outros.

A japonesa tímida falou em seguida. Sugeri que falasse em japonês e Mao traduziu para mim. Sei da dificuldade que os japoneses tem em falar inglês e eu queria facilitar o que percebia que seria um desafio muito grande para ela. Foi comovente escutá-la  descrever a imensa dificuldade que sente em se expressar para os outros. Sua voz extremamente baixa e fina era um sintoma claro de uma insegurança imensa, como nunca vi em outra pessoa. É como se ela tivesse um bloqueio na garganta, uma força enorme a reprimindo de falar, uma força alimentada pelo medo do julgamento dos outros. Disse a ela que fiquei impressionada com a energia positiva que ela emanava, com seus sorrisos e sua delicadeza. Fiz um carinho em seu braço, senti o quão carente ela estava. Pensei na imensa coragem que ela teve em passar um dia inteiro com pessoas que nunca tinha visto antes.

Mao, a chinesa, falou com mais segurança, em inglês. Contou que escreveu no papelzinho que foi queimado coisas que se arrependia de não ter feito. Se descreveu como passiva diante da vida, que percebia estar passando em inércia. Mao gostaria de ser mais pró-ativa, de ter mais coragem de se impor, de se importar mais com as consequências positivas que poderiam vir de iniciativas e mudanças de caminho. Observou que nesse ponto diferia de mim.

Essa conversa me abriu os olhos para como o ser humano é fundamentalmente parecido. Os sofrimentos das três mulheres tinham um ponto em comum, a dificuldade de lidar com as consequências das nossas ações, com as expectativas que temos em relação ao que os outros pensam sobre nós, com a necessidade de aprovação externa, de legitimação. Falei isso para elas, disse que apesar de sermos de culturas e países tão diferentes, partilhávamos de angústias alimentadas pela mesma fonte. Ao tomar consciência disso, um sentimento de empatia com os outros me invade. Senti um carinho imenso por aquelas duas mulheres tão diferentes e tão parecidas comigo. Me levantei e dei um abraço apertado em cada uma.