Sobre bicicletas e deslumbramento

 

Demorei até demais para me aventurar por Tóquio de bicicleta. O medo que nasceu das minhas raízes cariocas me impedia de enfrentar uma cidade imensa e sem ciclovias. Lembra do meu post “O lixo é de cada um“? Pois é, mais uma vez posso usar a mesma lógica para falar de outro aspecto da convivência urbana. Naquele texto escrito no início da minha jornada aqui no blog, eu dizia que aqui em Tóquio não existem latas de lixo nas ruas e também não existe lixo nas ruas. E agora repito a mesma lógica: aqui não existem ciclovias e eu nunca pedalei com tanta tranquilidade.

Nos primeiros meses depois de comprar a bicicleta, tinha mais coragem de andar pelas calçadas do que na rua com os carros. É claro, meu raciocínio era me proteger em primeiro lugar, não me arriscar de ser atropelada por quem está mais forte e rápido do que eu. Pois agora que eu finalmente entendi que o respeito respeito permeia o comportamento do cidadão, ando no asfalto tranquila. Os motoristas dirigem dando prioridade aos ciclistas que estão na rua. E nas raras calçadas em que as bicicletas devem circular (sempre largas), os ciclistas pedalam dando prioridade aos pedestres. Quem se locomove está sempre atento ao mais fraco e assim todos convivem em harmonia. Perceberam a diferença básica? Primeiro eu me preocupava com a minha segurança. Agora eu me preocupo com a segurança do outro. O pedestre é o único que não tem responsabilidade e pode andar distraído.

Vou aproveitar este texto para falar de dois tipos de comentários que recebo frequentemente e aos quais ainda não respondi. O primeiro se repete até demais, e se refere a tudo de ruim que o Japão já aprontou em sua história. Sempre que escrevo sobre o que aprendo por aqui, alguém responde com um contraponto negativo. É claro que conheço bastante da história do país em que vivo há mais de dois anos. Mas no meu blog tomei a decisão editorial de escrever sobre o que é construtivo, porque acho que temos muito a aprender com um povo que cometeu muitos erros, viveu muitas tragédias e desenvolveu um sistema de convivência urbana saudável e baseada no respeito ao outro e ao espaço público.

Ao ler o que é positivo, responde-se com o negativo, chamando a atenção para falhas e defeitos. Será que não é melhor, ao invés de se perder tempo e energia julgando os erros dos outros, aproveitar o que se aprende com os acertos para consertar os nossos próprios erros? Esse raciocínio me leva a responder a outro comentário recorrente que recebo. Frases como: “não aguento essas pessoas que vão morar fora do Brasil e ficam deslumbradas, passam a desvalorizar seu país.” Sinto muito, mas é isso mesmo que acontece em muitos momentos. Não em todos, é claro. Passamos também a valorizar aspectos da nossa cultura que antes nem percebíamos e que começam a fazer falta. Escrevo sobre esse sentimento em PertencimentoMas fico sim deslumbrada com muito do que presencio aqui e isso me faz olhar para o meu Brasil de forma diferente. Esse sentimento me deixa feliz? É claro que não! O deslumbramento me deprime porque ele vem da constatação de que nossas falhas são imensas.

Aqui se tem organização, segurança, respeito e paz. E quando descrevo tudo isso ao invés de discorrer sobre os defeitos do Japão, é porque acredito que são os bons exemplos que devem ser compartilhados e servir de inspiração.